No seu 2019, o que será obsceno?
"O que é obsceno? Obsceno?
Ninguém sabe até hoje o que é obsceno.
Obsceno para mim é a miséria, a fome, a crueldade,
a nossa época é obscena."
Ninguém sabe até hoje o que é obsceno.
Obsceno para mim é a miséria, a fome, a crueldade,
a nossa época é obscena."
Hilda Hilst
Vê se pode, um homem beijando outro homem na frente das crianças!
Vê se pode, a menina tomando um copo de cerveja no meio dos amigos!
Vê se pode, a travesti achando que pode entrar na igreja!
Quando foi que essas coisas passaram a chocar mais os seres humanos do que uma senhora morrendo na fila da UPA por falta de atendimento? Quando foi que um menino brincando de boneca se tornou mais obsceno do que uma criança sentada na esquina pedindo dinheiro pra comprar comida? Quando foi que reivindicar uma reforma agrária virou mais obsceno do que um incêndio criminoso em uma comunidade? Deixando, às vésperas do tão celebrado Natal, famílias sem esperanças. Já não havia abundância, o que os restou foram as cinzas, e a gratidão aos que levantaram a mão para tentar ajudar.
Me digam, me expliquem, quando foi que uma mulher sem virgindade virou algo mais obsceno do que uma mulher apanhando do marido e sendo lançada da janela do seu apartamento? Me digam quando foi que a palavra feminicídio passou a significar uma piada?
Quando foi que a sociedade falhou, e elegeu para presidente um homem que é obsceno?
2019 pra mim será um ano diferente, o dia 1 de janeiro de 2019 será marcado para a população feminina, negra, LGBTQI, indígena, como o marco do retrocesso. Onde o preconceito, travestido de religião, conservadorismo e fundamentalismo, subiu em cima de nós e tentou nos fazer parar, como se todos esses anos lutando pela igualdade de direitos virassem cinzas, e o que nos restasse fosse a gratidão aos que ainda levantam a mão para tentar ajudar.
A esperança está naqueles pra quem o obsceno é a falta de comida, falta de oportunidades, falta de igualdade de direitos. A vocês, eu serei eternamente grata.
Feliz 2019! E ... ninguém solta a mão de ninguém!

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