EM UM RELACIONAMENTO COMPLICADO COM A FEMINILIDADE

Unhas pintadas, maquiagem leve para o dia a dia, um corte de cabelo e depilação sempre impecável, salto alto, brincos, colar e anéis. Sabe o que significa essa lista? Esse é o manual de instruções para, uma mulher ocidental do século XXI, ser feminina. Ao longo da história e das culturas essa lista muda. Argolas para alongar o pescoço, roupas que cobrem todo o corpo, em algumas sociedades a mulher super magra é simbolo de feminilidade, em outras, a mulher mais gorda é o modelo a ser seguido para se manter nos padrões. Mas e nós, mulheres desse século, brasileiras, que precisamos nos movimentar entre casa, trabalho, igreja, saídas com os amigos, almoço em família, sempre mantendo esses padrões de feminilidade? Como estamos lidando com isso?

Talvez, para um homem, seja esquisito pensar nisso. Nós somos ensinadas a gostar dessas coisas, não nascemos gostando. Algumas de nós odiamos alguns desses padrões, e é tão difícil lidar com eles. Embora eu seja uma mulher que não faz questão de manter esses padrões, e tenho uma preguiça enorme de fazer qualquer coisa relacionada, por demandar muito tempo, nos momentos em que senti vontade de ser "mais feminina", me deparei com alguns obstáculos, me deparei com uma sociedade que quer ver você maquiada, mas se você investe nisso, logo recebe julgamentos.

Vamos falar sobre eles?

Eu me formei em uma área que, até então, é predominantemente masculina. Então, vamos lá. Ao sair de casa para o trabalho, o que uma mulher que trabalha com muitos homens pensa? Se eu passar esse batom vermelho que eu adoro eu vou chamar atenção para minha aparência, e darei mais motivos para que eles duvidem da minha capacidade. Parece ridículo né, mas vamos combinar meninas, vocês já pensaram isso pelo menos uma vez na vida, não?

E quando saímos na rua rapidinho pra ir ao mercado a pé? Ou pegamos um ônibus? Logo corremos para colocar roupas mais largas, amarrar uma blusa na cintura para esconder o corpo. A tal feminilidade de que tanto somos cobradas precisa ser escondida. Porque ela só é viável quando os outros querem, não na medida em que nos sentimos bem com isso.

E aquela mulher, que nunca ligou muito pra isso. Ela aprende a se amar, algumas se amam passando cremes no corpo, outras se amam saindo fazer uma viagem sozinha, e tem aquelas que investem na sua aparência, o que as fazem se sentir poderosas. Logo, é comum ouvir comentários do tipo "huum, está se arrumando pra quem será?", "Ah, tem algo estranho nessa história, está se arrumando demais", e pasmem, algo que já ouvi diversas vezes, "Que pirigueti" (pra não citar a real palavra).

Somos cobradas para andarmos sempre impecáveis. Ai daquelas que não andam assim. São julgadas, baseadas no mito de que mulheres são super poderosas. Elas estudam, trabalham, têm filhos, cuidam do marido, fazem trabalhos voluntários sem NUNCA DESCER DO SALTO. Sinceramente, não somos super poderosas. Homens, não sobrecarreguem as mulheres e nem elogiem elas por serem super poderosas porque você não está afim de trocar as fraldas do seu filho ou lavar a louça. Não chamem as mulheres de super poderosas dizendo que elas são capazes de tudo e são super competentes, se quando sua namorada ou esposa ganha mais que você, você não gosta disso. Não queiram mulheres bem arrumadas, se quando uma arquiteta chega na obra bem arrumada vocês a tratam como se fosse uma “mulher indecente” sem capacidade para entender sobre construções. Não falem que as mulheres são capazes de fazer tudo em cima do salto, belas e formosas, com delicadeza, se quando sua esposa pára de se depilar para priorizar outras coisas na vida, como os filhos e o trabalho, você justifica sua traição baseada nisso.

Afinal de contas, até que ponto essa feminilidade, tão cobrada, é bem aceita? Ela é bem aceita a medida que essas mulheres femininas não queiram ocupar espaços de trabalho e papéis de gênero masculinos. Ela é aceita a medida que um homem não precisa lavar a louça no final do jantar. Ela é aceita a medida que a mulher é mantida como um objeto de prazer e de serviço de um homem.

Por isso, mulher, passe aquele batom rosa, coloca a botina de EPI e vai pra obra. Faça as sobrancelhas e vai dirigir um caminhão. Ou não. Ou trabalhe em um salão de beleza e não corte os cabelos pelo tempo que você achar que te fará bem. Trabalhe com moda e não depile as pernas, se não se incomoda com isso. Seremos julgadas de qualquer forma, porque o problema não está na nossa aparência, o problema está em ocuparmos espaços que diversas pessoas acham que não é o nosso.

Ilustração: Georgya Brogian.

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