O DIA DE UMA MULHER

Com que roupa vou para a aula hoje? Tá calor, acho vou de vestido, apesar que ... não, não, melhor não dar motivo. Vou de calça mesmo. Melhor ainda, vou levar uma saia na mochila, chegando lá, se eu não aguentar ficar de calça, coloco a saia. Perfeito!

- Oi papai! Estou pronta. Vamos?

Ai ai, a pior parte é essa, quando meu pai me deixa no estacionamento e eu sigo para a aula e ele para o trabalho. Tenho tanto medo. Nessa hora da manhã a rua é vazia, mas vou caminhar rapidinho. Droga! Quem são aqueles caras? Eles estão vindo pra cá, ai que droga, vão mexer comigo, certeza. Se eu precisar correr, vou pra onde? Acho que pra direita, ali tem uns comércios, talvez já tenha algum aberto, mas não se apavore, só corra se eles fizerem alguma coisa. Eles estão chegando mais perto. O que eles estão falando será? Não acredito, eles tão falando comigo, será que eu corro agora? 

- Hei gatinha, vem cá, vem! Que delicinha eim, qual será a cor da calcinha dela? Vamos tirar pra ver? Melhor não correr eim, estamos em três.

Meu Deus, preciso correr, e agora? Eles estão atrás de mim. Respira fundo. Eu estou paralizada, não consigo fazer nada. VAMOS JACQUELINE! CORRA! CORRA! Eu não consigo, eles não param de falar, e agora? Estou quase chegando só falta atravessar a rua.

Cheguei! Ufa, eles só estavam falando mesmo. Não estou legal, preciso ir ao banheiro. Para de chorar Jacqueline, não aconteceu nada demais. Será que eu conto para as minhas amigas? Não, elas vão achar besteira, você está chorando por pouca coisa.

Cheguei na aula. Trabalho em grupo, ótimo, adoro, passa rápido. 

- Hei meninos, posso fazer o trabalho com vocês?

- Pode sim. Junte-se a nós.

Está complicado esse trabalho. Quantas dúvidas. Nossa! Eu sei essa, estudei esse assunto semana passada, eu explico pra vocês meninos. Que estranho, por que eles estão me ignorando? Acabei de falar que sabia resolver. Não estou entendendo. Meninos, eu sei fazer isso, olhem pra mim, me escutem! Não, acho que eles não me acham boa o suficiente, vou ficar quieta. Eles foram tirar dúvida com o professor e ele falou exatamente o que eu havia falado uma hora atrás.

- Ah sabe como é, não dá pra ouvir o que mulher fala. - Um deles disse.

Vou estudar, preciso ser boa, preciso provar que sou tão boa quanto um homem, vou pra biblioteca. Já fiz quase todos os exercícios que professor pediu, só falta um. Por que não consigo fazer esse? Que droga, não vou pedir ajuda, não posso deixar que eles pensem que sou fraca. Acho que vou pedir ajuda para o professor. Vou ter que ir na sala do professor. Não queria isso! Tomara que o professor não tente nada comigo. Será que o decote dessa blusa não tá muito aparente? Ele vai achar que estou dando “mole” pra ele. Mas não posso deixar que isso atrapalhe meus estudos. 

- Olá professor tudo bem?

Não chegue muito perto. Isso, nessa distância tá bom. Não faça piadas, se controle, ele vai achar que você é atirada. Droga! fiz piada. Meu Deus Jacqueline, você não consegue ficar dez minutos sem fazer um comentário sem graça. Por que ele está me olhando assim? Será que ele entendeu errado? Acho que ele está pensando que estou dando em cima dele. Melhor eu ir embora, deixa esse exercício sem fazer mesmo.

Que dia cheio. É tão bom ir pra casa. A vantagem do ônibus a noite é que não é tão cheio, o risco de alguém se esfregar em mim é menor. Olha, tem um banco vazio, é de dois lugares, melhor ficar de pé. Ah não, estou muito cansada, vou sentar na janela. Sentou um homem do meu lado. Ele tá me olhando ou é impressão minha? Ele tá olhando mesmo. Meu Deus, ele está virado pra mim, estou me sentindo intimidada. Quero sair daqui. Mas se eu sair ele pode ficar bravo e me xingar, vir atrás de mim. 

Está na hora de descer do ônibus. Cadê minha chave? Droga não acho minha chave. Cadê? Cadê? Achei. Está aqui, ufa! Vou colocar ela entre os dedos, se alguém vier fazer algumas coisa, eu não sei o que farei, mas acho que a chave no meio dos dedos pode ajudar. Será?

Dia cheio, vou dormir, amanhã será melhor. Encontrarei minhas amigas, vamos ensaiar para à noite apresentar na igreja.

Chegou o outro dia. Cuidado com a roupa pra sair. Vou a pé. Ensaio maravilhoso. Risadas com as amigas. Bora pra casa! Adoro andar. Ai, lá vem. Aquele cara na bicicleta vai mexer comigo, certeza. Ele está se aproximando. É um senhor, menos mal. Hei, espera aí, por que ele está me olhando assim? Ele está chegando muito perto. Sinto suas mãos passando pelo meu corpo. Meu Deus, o que faço? O primeiro homem a encostar em mim,  assim, é um senhor numa bicicleta. Por que Deus? Não tem ninguém perto, preciso correr. CORRE! CORRE! Não tem ninguém por perto, o mercado mais próximo ainda está muito longe. Ele vai me alcançar. Minha asma, vou desmaiar. Continue correndo, senão ele te alcança, corre, corre, eu estou sem ar, não conseguirei chegar ao mercado.

Cheguei.

- Papai, vem me buscar. Estou no mercado na esquina de casa, tem um homem atrás de mim. 

Estou com medo!

-

Eu queria que fosse ficção. Queria não ter passado por essas coisas. Queria que milhões de mulheres não passassem pelas mesmas coisas todos os dias e muitas vezes por coisas bem piores, apesar de tudo, eu sou uma mulher com muitos privilégios. Queria que o mundo fosse igualitário e que nossos corpos não fossem tratados como objetos e nossa inteligência fosse reconhecida igualmente. Queria que meninas pudessem ligar para os seus pais e falar "Papai, estou com medo" e não que os pais fossem, em muitos casos, o motivo do medo.

O dia das mulheres é dia de reconhecimento, luta, e reflexão.

ATÉ QUANDO?

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