A Universidade Pertence a Quem?
Se eu pudesse me transportar no tempo, eu veria perfeitamente a Jacqueline de 13 anos, sentada na primeira carteira da classe, escutando a professora dizer que de todos os alunos que estavam ali, nenhum entraria em uma universidade, o mais perto que chegaríamos seria a porta de alguma "uniesquina". Essas palavras me marcaram tanto, que se você perguntar de algum momento que me lembro daquele ano estudantil, esse é minha primeira lembrança.
Essa semana, uma declaração do atual ministro da educação me chamou muita atenção. Ele disse que as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual. Vamos falar um pouco sobre isso?
As universidades, atualmente, já estão reservadas para a "elite". A prova disso, é que daquela classe de ensino fundamental, de um colégio estadual da periferia de Curitiba, eu consigo contar com os dedos de uma mão os que completaram o ensino superior. Aquela professora estaria certa? Os alunos da minha classe eram tão desprezíveis que não tinham capacidade para entrar em uma universidade? Na época eu fiquei revoltada. Afinal de contas, quem ela pensava que era, para falar pra mim que eu não conseguiria entrar em uma universidade? Bom, hoje eu entendo. Esse espaço de conhecimento, pesquisa e desenvolvimento intelectual não foi feito para nós.
Quando digo nós, me refiro aqueles adolescentes que dividiram a turma comigo naquele ano. Adolescentes que nasceram, viveram e provavelmente morram na periferia. Que tinham mais aulas vagas do que aulas produtivas, pois o descaso com escolas públicas é enorme. Afinal de contas, pra que investir neles? Eles jamais serão capazes de entrar numa universidade, quem dirá terminá-la. Jovens que nem sabem que existe o curso de terapia ocupacional, por exemplo, ou que existem aproximadamente 30 cursos de engenharias diferentes, não sei porquê, nem como, mas essa informação não chega na gente.
Não chega na gente a informação que se você entrar em uma universidade, você pode ser pesquisador. Que você pode fazer especialização, mestrado, doutorado. Que você pode virar professor mesmo tendo se formado em design. Ninguém conta pra gente que existem bolsas de estudo pra estudar na Europa. Pra gente, "terminar os estudos" é concluir o ensino médio. Essa é a única informação que chega pra gente.
E, lembra daquela professora? Que falou que eu não entraria em uma universidade? Bom, ela QUASE acertou! Eu sempre fui muito dedicada, estudava muito mais do que a maioria dos meus colegas. E eu quase não passei no vestibular. Entrei por cotas do SISU, na quarta lista de chamada da UTFPR.
Agora vamos falar de cotas, e sua relação com a frase do ministro da educação. A UTFPR é uma instituição famosa pela sua excelência em cursos de engenharia. E nossa, eu estava lá! Cheguei, consegui fazer parte daquele espaço. E sabe o que eu descobri? Que eu não era bem-vinda ali. Cansei de ouvir os professores falando de como antes dos alunos cotistas e do SISU a universidade tinha alunos excepcionais. Alunos super preparados, dedicados e, quando era passada a lista de exercício, eles saíam da aula e iam pra biblioteca estudar. Os professores estavam acostumados com a elite. A elite é ótima, eu concordo. A elite mora a quinze minutos da universidade, a elite resolvia a lista de exercícios enquanto os outros levavam mais de uma hora pra chegar em casa. A elite não se preocupava se ia ter dinheiro pra almoçar no outro dia, ou se o seu computador iria suportar aquele programa pesadíssimo que o professor mandou instalar. A elite não precisava chegar em casa e preparar os brigadeiros e bolos que levariam pra faculdade pro outro dia para pagar o almoço. A elite não precisava passar o final de semana lavando roupas, esfregando chão e cortando a grama. A elite é dedicada, e a ela estava reservada a universidade.
Em seis anos na universidade eu vi pessoas que não eram elite ocupando aquele espaço. Eu vi professores mudando paradigmas. Abrindo espaço e compreendendo as necessidades do novo perfil de alunos que estava surgindo. A informação começou a chegar, quem me perguntava sobre a universidade eu dava todas as dicas possíveis, como se inscrever pro SISU, PROUNI, os cursos que existem, como e onde fazer. Mesmo que ainda fossem pouquíssimos de nós, finalmente o filho do empregado estava sentando ao lado do filho do patrão.
Ano passado, uma pessoa me disse que de nada adiantava ter um diploma de engenharia e estar desempregada ou ir trabalhar como UBER. E eu vou te dizer uma coisa, adianta sim! O espaço da universidade também é nosso! O conhecimento é o bem mais precioso que um ser humano pode acumular. E precisamos garantir que esse espaço continue sendo nosso. Infelizmente a educação básica ainda não é suficiente para que não haja cotas para estudantes de baixa renda, e muito menos temos um país livre de racismo para não existir cotas para negros. Investir em educação é um processo lento, mas eficaz. E garantir o acesso aos afetados pela desigualdade social e racial é papel fundamental para o desenvolvimento do Brasil. Meus anos na universidade pública bastaram para me ensinar que o Brasil é injusto, desigual, e precisamos continuar caminhando para que cada vez mais a periferia invada esses ambientes e se tornem parte deles.

Comentários
Postar um comentário