O machismo é um câncer, mas o feminismo é um band-aid

"O machismo é um câncer, mas o feminismo é um band-aid.
Somente o amor verdadeiro resolve todas as desigualdades."

Crescer com pais cristãos. Ir desde criança todo domingo à igreja. Participar de cultos para adolescentes. Conhecer um menino. Se apaixonar. Orar com ele em prol do futuro casamento. Noivar. Casar. Construir juntos o futuro, comprando casa, carro. Ter filhos. Levar os filhos todos os domingos à igreja. Levar eles aos cultos de adolescentes ... Que perfeição não? Que sonho. A solução de todos os problemas.

Agora, adicione a essa vida uma mulher que não pode fazer faculdade onde quer porque o namorado não aprova, ou então, ela não pode fazer o curso que quer porque o namorado simplesmente não quer. Também adicione o seguinte: essa mulher só pode ir na igreja quando o homem permitir, porque ela é uma mulher cristã e respeita seu marido, sem discussão, não vale a pena comprometer a felicidade do seu casamento por causa de uma ida na igreja desacompanhada. Ter amigos de sexos opostos? Fora de cogitação, isso não é o tipo de coisa que um casal cristão faz. O amor um do outro deve ser zelado e respeitado, sempre. Se embelezar para o marido é essencial, afinal de contas ele é homem né, sabe como é?!? A mulher assumir despesas dentro de casa? Como assim o marido está desempregado? Esse é seu papel como cabeça da casa, haja como homem! A mulher é o pescoço responsável por controlar o cabeça que é o marido. Manipulação, a verdade é que isso se chama manipulação, não há outra palavra para descrever.

Caso você não siga as instruções acima, seu casamento está fadado ao fracasso. Foi o que eu ouvi quase minha vida inteira.

Até que um dia alguém me falou que eu poderia fazer o curso que eu queria, onde eu queria. Me falaram que eu poderia frequentar os lugares que eu amasse, e que eu poderia conhecer um homem que não se importaria se eu fosse sozinha, seja na igreja ou numa festa. Uma vez me ensinaram que tudo bem eu não gostar de me maquiar, ou não estar sempre com a aparência impecável e fora do padrão, não era isso que me traria o companheiro ideal, meu companheiro ideal me escolheria pela minha inteligência, meu caráter, meu senso de humor, e mais uma centena de características muito mais valiosas e interessantes do que minha aparência. Me falaram que eu poderia ter amigos homens, eu poderia trocar confidências com eles, e inclusive poderia me casar com um homem que iria amar esses meus amigos. Me falaram que se eu quisesse terminar minha faculdade e me dedicar a cuidar da minha casa tava tudo bem, mas que eu também poderia ir trabalhar, e por que não deixar meu marido cuidando da casa enquanto vou ao trabalho? Ou ainda, nós dois poderíamos trabalhar se quiséssemos. Uau, eram tantas as possibilidades. Eu poderia ser eu mesma. Eu poderia falar pro meu marido o que me desagradava sem manipulá-lo. Eu não precisaria mentir sobre meus sonhos, meus desejos, com medo de ser trocada por outra. Com ele, eu poderia ser o que eu quisesse. Na verdade ele seria meu encorajador. Me falaram que eu deveria me casar com um homem que me achasse um máximo e que eu achasse ele um máximo também, e que juntos iríamos arrasar.

Na época em que me falaram essas coisas eu tinha um namorado cristão, estávamos prestes a nos casar. Eu amava ele. Mas nossa, como lidar com anos sendo ensinada que minha devoção deveria ser única e exclusiva ao meu casamento. Como lidar com o fato de que, se eu tivesse amigos, ele teria amigas também. Se eu poderia escolher ser dona de casa, ele poderia chegar em um momento e falar: “quero ser dono de casa e cuidar das crianças!” Como seria nosso relacionamento a partir daí?

Provavelmente, se eu seguisse a primeira lista de instruções que me foi dada eu seria feliz. Estaria satisfeita porque, diga-se de passagem, meu namorado seria ótimo para cumprir aquela lista. Porém, em um país que ocupa o quinto lugar no ranking mundial de feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, me ater apenas a minha felicidade seria egoísmo. Foi aí que eu concluí que o mesmo homem que diz: "você não vai sair com as amigas", pode ser o homem responsável por matar sua mulher por conta de ciúmes. Que a mesma mulher que termina um relacionamento porque o marido não a deixa estudar, pode ser perseguida e ter a sua vida virada em um misto de medo e pavor por um dia ter amado alguém como aquele homem. Foi através do medo nos olhos de mulheres com quem convivi, medo dos namorados e maridos, que eu cheguei a conclusão de que aquela lista de instruções precisava sofrer algumas alterações.

A regra passou a ser: seremos quem quisermos ser, dividiremos a vida e as decisões como iguais, tendo sempre como alvo o Deus a quem decidimos nos dedicar e entregar nossas vidas.

O amor verdadeiro é sim capaz de curar todas as desigualdades. Ele é perfeito. Porém, não é esse amor que está sendo ensinado. Somos ensinadas a sermos belas, recatadas, manipuladoras, ciumentas... Quando deveríamos estar sendo ensinadas a trabalhar nosso caráter e a nossa empatia, deveríamos estar sendo ensinadas a ser a mais sincera possível com nossos maridos, deveríamos estar sendo ensinadas que a devoção e amor à pessoa por quem escolhemos compartilhar a vida é algo que parte do indivíduo, e que essa devoção precisa ser recíproca.

Então, não! O feminismo não é um band-aid que só serve para tampar a ferida, o feminismo é só mais uma forma que Deus pode usar para salvar pessoas de vidas e relacionamentos desgraçados por dogmas e fundamentalismos religiosos ou culturais. Ele nos abre os olhos para como somos desiguais e como mulheres morrem por conta dessa desigualdade. Se alguém chega para alguém que tem um tumor e diz que um tratamento adequado o curará, você não espera Deus operar um milagre e dissolver o tumor. Você trata, o mais rápido possível. O feminismo é o tratamento que estamos precisando para curar esse câncer que é o machismo.

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