De qual ponto partimos?

Ontem eu estava voltando pra casa e entrou no ônibus um menino, mais ou menos uns treze anos. Ele estava bem vestido, com camisa polo, calça jeans e uma mochila nas costas. Ele estava vendendo balas.

O que me chamou atenção foi a forma como ele falou com todos, como explicou sua condição e o porquê estava vendendo balas no ônibus. A maioria das pessoas nem deu bola, ou nem ouviu a história que ele tinha pra contar. Bom, eu ouvi, e eu queria poder dizer para ele coisas que não consegui falar ontem porque a minha vontade de chorar era maior do que minha coragem para encorajá-lo.

Eu queria poder dizer que ele vai superar isso, eu queria poder dizer que a vida é sim injusta, mas que com força de vontade ele pode ir onde ele quiser. Mas eu estaria mentindo. Não, ele não chegará lá, pelo menos não ao mesmo tempo que alguns colegas mais privilegiados, não sem antes vender balas, não sem antes andar quilômetros a pé porque ele não pode pagar um transporte. Não, ele não poderá chegar ao mesmo lugar onde os seus colegas da mesma idade que, no momento em que ele vendia bala dentro do ônibus, estavam no curso de inglês. Não, ele não chegará ao mesmo lugar que os seus colegas que, no momento em que ele chegou cansado em casa, após passar no mercado para comprar leite (ou aquele biscoito recheado que ele ficou pensando o dia todo), estavam sentados no sofá relaxando e ouvindo sua música favorita enquanto os biscoitos recheados estavam transbordando nos armários. E pra falar bem a verdade, seus colegas estão enjoados desses biscoitos. Ele não chegará nas mesmas condições e nem com a mesma força dos que não precisaram se submeter ao trabalho aos treze anos. A probabilidade é que, no meio do caminho apareçam, para esse menino, outras despesas. A probabilidade é que ele olhe pra injustiça das oportunidades e desista antes mesmo de tentar. Sabe por quê? Porque existem pessoas que tentaram e não conseguiram.

Na vida eu conheci inúmeras pessoas que não chegaram onde queriam ou sonhavam. Não por falta de estudar, não por falta de querer ou merecer. Mas porque foram privadas de alguns privilégios.

Eu queria poder falar para aquele menininho vendendo balas no ônibus que ele pode conseguir, que talvez ele leve dois ou três anos a mais para conseguir entrar em uma universidade do que outros colegas. Talvez ele irá perder três horas do seu dia se deslocando para ir estudar ou para o trabalho. Talvez ele terminará a faculdade em sete anos ao invés de quatro, porque ele vai precisar trabalhar oito horas por dia e, nesse meio tempo, encaixar o estágio obrigatório. Eu queria poder falar que existem coisas que não estão em nossas mãos, e para ele não se comparar com ninguém além dele mesmo. E que o que nos define não é onde nascemos, ou vivemos, mas do ponto que partimos até o ponto em que estamos dispostos a chegar.



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