É príncipe ou é princesa?
Hoje um vídeo da ministra Damares viralizou nas redes sociais. No vídeo ela diz que inicia-se uma "nova era" no Brasil, onde menino veste azul e menina veste rosa.
É um fato que essa foi uma declaração contra a tão temida “ideologia” de gênero, que ela insiste em dizer que está sendo ensinada nas escolas brasileiras.
A criança da foto sou eu, uma menina usando azul. Uma menina criada em uma família evangélica. Que já foi professora na escola dominical, líder de célula e de grupo de coreografia na igreja. Por que estou passando meu currículo? Porque o que vou falar aqui hoje é algo do qual eu entendo, e oh como entendo.
Eu sempre fui a menina de azul entre as meninas cores de rosa dentro da igreja. Sempre reneguei o ensinamento de que devemos ser "princesinhas", isso claro por influência da minha educação, que mesmo machista, ainda estava bem a frente do tempo ou do convívio social em que vivíamos.
A preocupação das igrejas evangélicas é que a mulher perca sua feminilidade ou o homem sua masculinidade, pois isso, segundo eles, ameaça a família cristã.
Cultos ensinando garotas a serem princesas é bem comum no nosso meio. E nossa, sempre senti repulsa pelos cultos de princesas. Assisti muitos pela internet, e tive o desprazer de participar de um pessoalmente. Me lembro que nesse culto, a igreja que estava promovendo o evento era enorme, lá haviam cerca de 2 mil garotas, jovens e adolescentes. De todas as atrocidades ditas aquele dia, a que mais me chocou foi quando a pastora, que trazia o ensinamento, disse que nós meninas quando estamos namorando temos que mandar no relacionamento, nada de mãos bobas, beijinhos indecentes. Mas depois de casadas não podíamos regular não, se não estivéssemos com vontade de fazer sexo, sempre que o marido quisesse deveríamos comprar um lubrificante e aguentar o tranco. "WTF??????" eu pensei! Eu com 17 anos olhei para minha amiga ao lado e demonstrei minha indignação, ela me respondeu dizendo que se eu não aceitasse essa condição, meu marido me trocaria por outra.
Ou seja, a premissa de Damares é a mesma que é disseminada nesses cultos para princesas: somos objetos, prontos para ser trocado caso dê algum problema. É isso que mantém a família cristã unida? Ou seria esse o problema da família cristã? Mulheres princesas sem opinião, sem vontades, sem voz para gritar diante do absurdo, se submetendo a absurdos porque são ensinadas que para entrar no céu deve ser assim. Me perdoe querida ministra, pastores e pastoras, mas eu prefiro ser a menina que veste azul, casa com um homem que não irá pensar apenas na satisfação sexual dele, serei sim a mulher que usa tênis, não faz as unhas e odeia fazer compras. Sou e serei a mulher que casa com um homem com quem posso ser a ogra ou a princesa, ou as duas coisas, ou nenhuma delas, mas quem decidirá serei eu.


Jacque, parabéns pelo excelente texto! Concordo contigo e acredito que não podemos ficar caladas e muito menos aceitar o que a sociedade nos impõe. Já passou o tempo da submissão, de nos doarmos tanto pelos outros e esquecermos da nossa essência e do amor próprio. E isso não significa que precisamos passar por cima das pessoas, só precisamos que tenham tolerância e respeito por nossas opiniões e decisões. Somos seres humanos como qualquer outra pessoa, cheias de vontades, sonhos, desejos, medos e inseguranças.
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